Por que ser patriota e defender a soberania do Brasil virou coisa de esquerdista? O jogo virou?
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O jogo nunca virou porque a direita jamais defendeu a soberania de nosso país. Tenho certa inveja da Europa, porque ali a direita, fascista que seja, pelo menos é composta por pessoas que, sim, têm apreço pela pátria, ainda que esse apreço se manifeste de uma maneira violenta e incivilizada. Na América Latina em geral, e no Brasil em particular, a direita se compõe de pessoas que, de fato, odeiam o próprio país, visam somente ganhos imediatos (quando são capazes de conceber o interesse próprio), estão presas a ilusões religiosas tacanhas (quando são realmente religiosas, em vez de meramente hipócritas) e facilmente se põem a serviço de qualquer inimigo externo do país. A direita brasileira é vira-lata, alienada e entreguista. Na América Latina em geral, e no Brasil em particular, desde pelo menos o início do século XX, as medidas em favor da nação foram tomadas pela esquerda ou, quando tomadas pela direita, somente o foram para negar a pauta à esquerda ou para implementá-las parcialmente e esvaziar a ideia da esquerda.
Se você duvida do que eu afirmei acima, você não precisa me xingar, basta que encontre na História do Brasil desde 1945 algum exemplo de medida progressista de impacto que tenha sido tomada por um governo de direita. Refiro-me à medidas de interesse nacional e de consequências positivas para a maioria da população. Eu não pedi dois exemplos, pedi somente um.
Você não vai encontrar. O último direitista que realmente foi nacionalista acabou empurrado para a esquerda e se tornou postumamente o inspirador desta. Estou falando de Getúlio Vargas, que começou sua carreira como um ditador fascistoide e, quando saiu da vida para entrar para a história, opunha-se aos interesses imperialistas, estimulava a industrialização do país, criava direitos trabalhistas e planejava grandes projetos de integração nacional que não deviam muito ao stalinismo em concepção e escala. De Getúlio para cá a direita se resumiu a conspirar contra a democracia, inventar factoides e — quando no poder — implementar medidas que pioravam em geral a segurança jurídica e as condições de vida do povo.
Foi um governo de centro-esquerda (Juscelino) que avançou a industrialização do país, iniciada por Getúlio. Foi um governo de direita (Collor) que deu início à desindustrialização. Foi um governo de centro-esquerda (João Goulart) que pela primera vez pautou a ideia de reforma agrária. Foi um governo de direita (a "Redentora") que criou uma legislação fundiária que consagrou o latifúndio. Foi um governo de centro-esquerda (Lula), que iniciou o projeto nacional de desenvolvimento de software livre. Foi um governo de direita que jogou tudo fora e abaixou as calças do país para a Microsoft e a Amazon. Foi um governo de centro (Sarney, emparedado por um Congresso de centro-esquerda) que criou o Sistema Único de Saúde. Foi um governo de direita (Collor) que criou a DRU (Desvinculação das Receitas da União) com o objetivo de driblar a exigência de investimento em saúde e educação. Foi um governo de centro-esquerda (Juscelino, mais uma vez) que sancionou a primeira lei antirracista. Foi um governo de direita (Bolsonaro) que combateu como pôde a legislação antirracista.
Quando encontramos medidas progressistas adotadas durante regimes de direita, vamos buscar na origem e descobrimos que surgiram de iniciativas da sociedade ou foram propostas pela oposição de esquerda. Foi um político de esquerda (Nélson Carneiro) que propôs a reforma do Código Civil que permitiu o divórcio e deu personalidade jurídica própria às mulheres, por exemplo.
Governos de centro e centro-direita costumam ser moderados em suas ações (ainda assim foi Fernando Henrique Cardoso que completou a desastrosa privatização a toque de caixa de nossas empresas mais importantes, resultando disso o desmantelamento da malha ferroviária e a perda de milhões de empregos), mas governos de direita propriamente ditos nós só tivemos dois na era democrática (Collor e Bolsonaro), e ambos foram desastrosos para o país.
Collor encerrou o programa nuclear militar, abriu as portas do país para a CIA, destruiu a indústria de informática, consolidou a imagem de produtos nacionais de qualidade inferior aos estrangeiros e confiscou dinheiro da poupança (somente dos pobres tolos, que não foram previamente informados). Bolsonaro entregou aos EUA uma base militar, dissolveu nossa única empresa de fabricação de microchips (ceitec), deixou falir nossa maior indústria de armamentos (Avibrás), quis vender a Embraer para a Boeing, entregou refinarias a fundos estrangeiros por preço abaixo do mercado (e foi subornado por isso com as famosas joias), quis entregar a Amazônia aos EUA e de todas as formas humilhou-se diante de líderes estrangeiros, mostrando-se submisso e covarde.