escrevi 8 anos atrás, mas sempre me dá vontade de compartilhar escritos antigos:
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aprendemos a obedecer,
aprendemos que precisamos sempre agradar,
aprendemos que precisamos cumprimentar com abraços e beijinhos mesmo sem querer,
aprendemos que existe uma hierarquia natural e quem está embaixo precisa obedecer,
aprendemos que só se pode aprender na escola ou em uma instituição ou com alguém que tem um diploma,
aprendemos que os nossos interesses não são tão importantes, que o que nos ensinam é o que importa,
aprendemos que conhecer é mais importante do que se autoconhecer,
aprendemos que somos pequenos demais para fazer nossas próprias escolhas,
aprendemos que somos pequenos demais para tomar nossas próprias decisões,
aprendemos a ter medo da responsabilidade,
aprendemos a transferi-la, então, para os outros.
não é fácil dizer não para o que sempre foi,
não é fácil fazer escolhas diferentes daquelas com as quais você sempre conviveu,
não é fácil dizer não para algo que é reproduzido dia após dia por muitas pessoas em quem você confia e pelas quais você tem admiração,
não é fácil saber o que você realmente quer,
não é fácil optar por fazer suas escolhas conscientemente,
não é fácil dar valor aos seus interesses e aprender sozinho sobre o que lhe convém,
não é fácil sentir que seu aprendizado autônomo tem valor,
não é fácil assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas.
como saber o que você deseja para toda sua vida, quando você não conhece sequer um pequeno desejo seu? como saber o que você quer de verdade e separar seus desejos do seu medo que tem base em histórias contadas e repetidas tantas vezes pelas pessoas? como assumir desejos que não agradarão todas as pessoas? como assumir desejos que desobedecem uma tradição? como assumir a responsabilidade pelas suas escolhas em um ambiente de medo e culpa? como se manter fiel a quem você é?
com um passo de cada vez.
você não precisa saber tudo,
pode começar entendendo seus medos, sua dúvidas,
depois, devagar, ir conhecendo o que te deixa mais confortável,
e depois ir procurando saber um pouco mais sobre o que te interessa ou o que se faz necessário.
você vai percebendo que não é assim tão pequena,
você vai percebendo que é do tamanho necessário para cada situação,
você vai percebendo que é seguro fazer suas próprias escolhas,
você vai percebendo que é seguro se responsabilizar e que a culpa é outra coisa muito diferente,
você vai percebendo que tem mais liberdade e mais escolhas do que sabia.
e, no fim, vai perceber que sempre escolheu, mesmo sem saber, e que isso te trouxe inúmeros aprendizados. e vai descobrir o quanto é interessante e intenso fazer as escolhas que se alinham com quem você é. e talvez, mesmo que as situações que sigam suas escolhas sejam um pouco turbulentas e difíceis de encarar, você sinta uma leveza, sinta que isso tudo faz parte do fluir da vida - da SUA vida.
quando nós nos deixamos sentir tudo o que chega pra sentirmos e não tentamos esconder, negar, reprimir as emoções, somos abraçados por uma transformação e surge um desejo de ação, que, tão sutil e tão integrado, se confunde com a própria ação.
o mais comum é não sentirmos tudo até o fim e nos distrairmos, então esse desejo-ação não chega a se manifestar, fica lá escondido junto com a emoção, gerando sintomas físicos variados.
mas às vezes temos coragem e suporte e confiança o suficiente para sentirmos tudo o que surgir em dado instante, mas há mais uma camada de emoção que surge junto com o desejo-ação, de que tentamos fugir. então reprimimos o desejo de novo.
toda vez que reprimimos esse desejo profundo que nasce de uma emoção plenamente sentida, agimos conforme uma norma social ou algo que já estava preestabelecido como o certo e, embora pareçamos puros e bons, estamos fazendo o mesmo que as pessoas que agem conforme seus impulsos imediatos. as ações de ambos surgem a partir de um condicionamento e uma tentativa de atingir um objetivo, de parecer algo: corajosos, bons, livres... para se sentirem, de algum modo, finalmente aceitos, felizes.
reprimimos esse desejo-ação porque viver essa experiência é viver uma transformação que nos deixa livres inclusive de ser quem acreditávamos tão fortemente que éramos de maneira sólida e definitiva. é viver com uma responsabilidade radical por cada instante e não abandonar o presente em troca de devaneios e vaidades.
o meu exercício dos últimos anos tem sido observar tudo o que não me deixo sentir e simplesmente parar de segurar a emoção, deixando o movimento acontecer naturalmente. mas eu ainda me vejo interrompendo minhas ações em nome de ser boa, dócil, paciente, cuidadosa, desprendida, ou qualquer coisa que pareça elevada. e isso é só continuar agindo conforme impulsos rasos e automáticos, sem presença real. e quando eu me dei conta disso, um caminho se abriu, de ação, de abertura e um desejo de escrever e compartilhar.
talvez ninguém leia isto, mas como é bom voltar a escrever sobre o que me ocorre.
escrevi isto há oito anos. ainda me vejo aí, mas tudo um pouco diferente.
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vou te contar uma coisa,
eu queria demais.
queria espalhar cor pelo mundo,
queria espalhar alegria,
queria amenizar a dor,
queria demais.
queria abrir as porteiras,
mas ainda deixar lá,
pra quando fosse preciso fechar,
queria deixar os muros bem baixinhos,
pra gente se aproximar.
queria sim, queria tudo.
queria falar das minhas ideias pra uma, duas,
na verdade muito mais,
porque achava que elas podiam curar,
podiam salvar, podiam mudar qualquer coisa com que eu não conseguisse lidar.
queria semear bons hábitos, bons valores, bons costumes,
porque talvez assim fosse mais fácil viver junto.
queria acessar cada um que tivesse dúvida, que tivesse medo e insegurança. queria confortar.
queria que ouvissem minha voz,
que lessem o que escrevi,
que dissessem coisas boas ou ruins,
mas que falassem qualquer coisa sobre algo que fiz.
porque eu queria, queria mesmo, contribuir.
mas, gente do céu, que bom,
alguém me lembrou
que o meu trabalho é comigo, e só.
que não dá pra curar o outro,
que não dá pra fazer nada com o outro e com o mundo.
é só comigo.
esse é meu trabalho.
e nesse trabalho de me curar me encontro com cada um que me aparece e vejo nitidamente, na relação com ele, o que precisa ser olhado em mim.
e há tanto.
e percebo que compartilhar e me relacionar com os outros faz parte da minha cura, e não da deles, embora deles também possa ser.
eu sabia disso, mas em algum momento me perdi. esse momento era quase agora, mas agora não é. agora estou aqui, de novo. compartilhando. mas agora pra me curar e não pra curar você.
... não é silenciar, é simplesmente ficar consciente do silêncio.
quanto mais você procura a novidade, menos você é capaz de reconhecer o inédito cotidiano.
há muitas formas de demonstrar vulnerabilidade.
pra mim é muito confortável falar sobre minhas emoções e o que elaboro a partir delas. pra outras pessoas isso é um ato de vulnerabilidade. me colocar vulnerável é falar do que penso que sei, é arriscar dizer algo que aprendi, é falar de um assunto ou ideia que tive sem ninguém ter me perguntado.
de todo modo, o que eu queria dizer é que a vulnerabilidade, de qualquer modo, me inspira.
em que tipo de ação você se sente vulnerável? e quando foi a última vez que você arriscou viver isso?