me consumi por toda vida acreditando ter sido devorada pela palavra não dita mas meu coração nunca se calou eu só não prestei atenção mas agora escuto e me lembro você não ouviu só o meu silêncio tudo o que eu tentei esconder aparecia nas lágrimas que insistiam em cair na sua presença nos ombros endurecidos como se carregassem o mundo nos pés que não ousavam tocar o chão em nossos encontros tudo o que tentei esconder aparecia nos olhares desviados de desconhecidos e em todas as pessoas com quem você se encontrou - e elas também nunca lhe disseram em palavras até as pedras que cruzaram seu caminho diziam do que calei o não-dito estava em cada texto, cada vírgula, cada espaço lido e escrito por você você não ouviu só o meu silêncio e se o ouvisse por completo também escutaria todos os sons do mundo e entre eles estavam meus dizeres mais profundos
cubro-te com este tecido vistoso deixo que todos o vejam podem tocá-lo quando o vento sopra e sua ponta esvoaçante se separa do corpo podem admirar a beleza do tecido e escreverão poemas sobre ele e conhecerão suas cores e cheiro e textura quadros serão pintados com sua inspiração mas nunca serás vista nunca nada além do tecido poderá tocar-te nem mesmo eu, que seguro, insistente, o tecido em ti