Às vezes, o óbvio (que não é tão óbvio) recisa ser dito novamente. Em tempos de medicalização e popularização e disseminação de transtornos psiquiátricos enquanto item de repertório popular, é comum as pessoas dizerem "foi mal, meu cérebro é assim mesmo". Primeiro, não somos nosso cérebro. O cérebro é parte constituinte de quem somos, não uma super máquina que controla um autômato de carne (é difícil lembrarmos disso no auge da popularidade da neurociência). Segundo, acredito muito nas contribuições de Vygotsky que apontam o ser humano enquanto indissociável de seu meio social. Nós não somos individuais, existimos em conjunto (os homens se educam em comunhão, como disse Paulo Freire). Dito isso, às vezes o que você viu na rede do lado e te levou a pensar em uma avaliação para TDAH merece um segundo pensamento. Será que estou incapaz de prestar atenção, de reter memória ou de me manter comportado fisicamente em ambiente profissional porque estou exausto? Quantas coisas estou dando conta no dia-a-dia que massacram meu senso de humanidade e me fazem perder a capacidade temporária de cuidar das coisas básicas? Quantos estímulos eu me submeto ou sou submetido durante o dia que servem como gotas num balde já lotado, esparramando água pelo chão? Eu sou exposto a um ou mais cuidados de trabalho não remunerados e extremamente exaustivos, enquanto preciso ter a mesma vida social que os outros? Tudo isso mina nossas capacidades cognitivas e pode ser confundido com um transtorno quando, na verdade, é mais um sinal da invasão de nossas vidas por um turbilhão de estímulos e responsabilidades jamais observadas nessa quantidade antes. Quando classificamos o transtorno e abraçamos essa dificuldade como parte de nosso cérebro, deslocamos a responsabilidade e a "culpa" para nós mesmos, quando muitas vezes somos vítimas. Há pessoas que independentemente do que vivemos no mundo teriam sérios problemas com os critérios de atenção e memória. Mas uma grande parte de nós, na verdade, estamos mostrando sintomas de exaustão. Inclusive crianças.